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Experiências de um diretor de arte brasileiro na Europa

Experiências de um diretor de arte brasileiro na Europa
Por Henrique Damião

“ ...dar um tempo da propaganda e sair do país para estudar inglês e design. Boa desculpa para voltar aos tempos de estudante... ”


Todo publicitário brasileiro, mesmo não fazendo parte dos profissionais de primeiro time, se orgulha de dizer que a propaganda brasileira é uma das mais criativas do mundo. Funciona mais ou menos como os que não jogam nada de futebol e têm uma camiseta da seleção. Discutir se é certo ou errado não é a questão. A questão é que publicitários tupiniquins são reconhecidos no mercado internacional e este pedigree conta a nosso favor. Se você é competente, não importa de qual mercado você vem, disse que vem da propaganda brasileira, é ponto.

Todos os anos, milhares e milhares de brasileiros resolvem dar um tempo de suas vidas e correr atrás de novas aventuras e experiências. Nos quatro cantos do mundo tem brasileiro. Em Dublin, capital da Irlanda, não é diferente. Estudantes se beneficiam da legislação irlandesa, que permite que eles trabalhem nos horários em que não estão na escola. Esse grupo de pessoas é formado dos mais variados perfís: adolescentes, adultos, velhos, universitários e gente sem nenhuma experiência. Mas existe uma parcela de profissionais qualificados que estão na Irlanda com o simples objetivo de estudar, mas que também querem trabalhar para se manter e ter alguma experiência de trabalho fora do país. E é desses profissionais que vamos falar.

A figura do engenheiro que se muda pros Estados Unidos e vai trabalhar de pedreiro já se tornou lenda urbana. Quando alguém diz que está morando fora para estudar, logo perguntam se está trabalhando no Mc Donald’s ou sendo garçom. Isso realmente acontece com a maioria, é uma experiência e tanto, mas não deve ser encarada como regra. Engenheiros, médicos, dentistas, arquitetos e advogados são profissionais altamente regulamentados no mundo todo, dependem de especificações e certificações locais para poderem trabalhar, diria que não é algo muito simples. Mas, nós, publicitários, temos uma carta na manga: propaganda é linguagem mundial. Um departamento de criação com profissionais de múltiplas nacionalidades é o sonho de consumo de qualquer diretor de criação. São visões diferentes em um só lugar. É um banco de idéias infinito.

Profissionais de Uberlândia, especialmente, são medrosos e pouco auto-confiantes. Acreditam ser de um mercado interiorano e que não é fácil crescer fora. Vivem sonhando com São Paulo, mas não se movem em busca de novas oportunidades. Sei que esta é uma generalização apressada e que o mercado de Uberlândia pode dar um futuro interessante para alguns profissionais. Mas sabemos que ele é pequeno e, a menos que você seja um empreendedor, ter sucesso por aí não é tarefa simples. Eu me incluo no hall dos profissionais que não confiavam no próprio taco. Mas acabei aprendendo com a vida que não se pode contar apenas com a sorte, é preciso agir. Digo isso porque sempre fui um profissional de muita sorte, faço parte da última geração ABC Propaganda (de onde saíram profissionais como Paulinho da Fórmula P, Beto Gussoni da R&B e Gil da Ei!), trabalhei nessa que foi a única agência uberlandense com perfil paulistano, o berço do mercado de hoje. Depois passei pelas duas atuais maiores agências da cidade, Fórmula P e R&B. E então? Então percebi que sou jovem demais e que o mundo tem muito a oferecer. Era o momento de dar um tempo da propaganda e sair do país para estudar inglês e design. Boa desculpa para voltar aos tempos de estudante e se livrar do stress. Uma pausa de seis meses na Europa seria ideal.

Chegando em Dublin comecei a vida de estudante, bem folgada e sem stress. Fiz como todos os estudantes fazem. Fui atrás de um emprego temporário como garçom, atendente de hotel ou café. Mas, simultaneamente, resolvi enviar meu portfólio para algumas agências de Dublin. As expectativas eram nulas, foi totalmente descompromissado. Mas seguido de uma surpresa. Foi quando abri meu e-mail em uma manhã de terça-feira e lá estava um teste esperando por mim. Uma agência irl andesa me convidando pra criar uma campanha, se eu fosse bem teria uma oportunidade. Não pensei duas vezes. Briefing na mão, idéias borbulhando e em dois dias eu estava com uma campanha da Sony Ericsson criada para apresentar como teste. Um dia após enviar o material, o telefone toca e pinta o convite para uma entrevista face to face. Fui sem parar pra analisar o que estava acontecendo. Ao chegar na agência vi que se tratava de algo sério, uma empresa com prédio imponente, tendo na vizinhança gigantes como IBM, Google, Creative, Xerox, E-Bay e Symantec. Meu cérebro de publicitário uberlandense, adestrado com o pensamento ‘tem gente melhor que eu por aí’, logo me levou a pensar que aquilo não ia dar certo. Mas, ao encontrar profissionais na agência, notei que ali eu não era de Minas Gerais ou da Bahia, eu era o tal diretor de arte brasileiro que estava tentando uma vaga. A entrevista com o Diretor de Criação foi tranqüila. Mas eu ainda estava convencido de que aquilo não iria funcionar. Afinal, eu estava na Irlanda para brincar de ser estudante, não para ser publicitário. Mas como a propaganda me persegue, terminei a entrevista como um dos novos profissionais da empresa e com uma grande lição para a vida.

Certa vez li o texto de um publicitário de Uberlândia falando justamente do nosso lado caipira. Da super valorização que damos a tudo que vem de São Paulo ou Rio de Janeiro. Se fulano foi para São Paulo estudar propaganda, ele será um melhor profissional do que beltrano que estudou em Uberlândia. Se o cara trabalha na TBWA ele tem mais chances do que eu que nunca pisei no mercado paulistano. Isso tudo é conversa pra boi dormir. É caipiragem. É inocência. Precisamos nos despreender dessa falsa magia em torno de mercados grandes. Temos que focar naquilo que somos competentes. Pouco importa onde você nasceu ou em quais empresas você trabalhou. Faça valer aquilo que você repete todo ano ao ver as premiações em Cannes: publicitário brasileiro vale ouro!

Henrique Damião, diretor de arte mineiro ‘exilado’ na Irlanda, atualmente trabalhando na agência web Interactive Services, que tem escritórios em Dublin, NY, São Francisco e Bombaim. É também um dos editores do blog BICHOdeGOIABA.com.br

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